terça-feira, 28 de julho de 2015

Passados

Divergência inútil que atravessa o meu seio coberto de sangue falso.
És tu quem apoquenta o juízo nas horas tórridas de sexo monótono
És tu quem me deixa atordoada nos minutos de lisonjeio em que passo a mão na anca sentindo toda a curva intocável de meu corpo.
Vem junta-te a mim neste manjar dos deuses que é o amor cego e inegável.
Sente a fúria do meu instinto perdido no teu cheiro, e percorre o meu cheiro com o ouvido junto à minha pele.
Amor incógnito, que te sinto
Que te sinto mais que nunca inquebrável pela dor ou o odor da distancia
Amor que te nego mas não consigo por um travão quando queres seguir
Em frente
Não sei em que alma habitas mas sinto-te correr no sangue como se de um furacão se tratasse.
E de repente na hora triste em que atravesso a chuva fria, tu surges como uma sombra ambígua.
Quero tocar-te mas não consigo porque estás dentro, dentro de mim, no meu puro desejo de te possuir.
Amor ardente, que me consome todos os dias da minha vida
Vem junta-te a mim neste ritual meu.


sexta-feira, 3 de julho de 2015

Porto


Na estação de S. Bento (muito romantica e propicia a estes devaneios), enquanto espera o comboio um velho observa as pombas: no fim de vida é normal os velhos observarem os passáros, os cães, os gatos…a primavera, o inverno.
No fim de vida é normal ultrapassarmos preconceitos, inseguranças, até traumas, o velho olha e pensa:
-Será que os animais pensam, não podem pensar dizem na televisão.- mas a pomba olha-me! 
Os entendidos dizem que o único animal que pensa é o ser humano, e por isso é que fazemos as guerras, porque pensamos, sei lá. Mas os animais, não, os animais não pensam, será por isso que só matam para comer, ou então para se defenderem?
Gostava de ser mais parecida com a pomba, gostava que fossemos mais parecidos com as pombas.
A Pomba passeia-se pelo cimento junto á linha, vai e vem, vai e vem; o velho pensa:
-Parece que me seduz, parece que joga comigo, parece uma mulher, olha-me como uma mulher.
O velho tira do saco que carrega na mão esquerda um pedaço de pão e pousa suavemente no chão.
Chegou o comboio.
Da porta, encostado e já a roçar-se noutro homem, -comboio cheio vamos aqui como sardinhas.
Observa três das pombas que esvoaçam minutos antes, a depenicarem o pedaço de pão...

Fantástico o Ser

Todos com as suas lágrimas escondidas.
Foi noite de descoberta, entre copos a mais, e muita fartura na mesa, todos deixaram descortinar os seus anseios, a mesa farta não pode esconder a fome no coração, a fome de esperança, a necessidade de oportunidades iguais, a insegurança de quem foi muito pouco amado.
A namorada do Paulo esteve cá em casa, deixou escapar ao fim de umas taças de champanhe, que na noite de natal, o avô dele expulsou-o de casa, partiu-me o coração...
E de repente percebi, não sou a única a chorar sozinha a mágoa de saber o futuro negro, uns porque o conhecem outros porque passam por ele, mas todos os meus amigos acabam por estar a passar o mesmo mau bocado que eu, e se calhar não só eles mas toda uma geração de mortos vivos à procura de uma sorte.
Partilhamos muito, muito mais que muitos grupos urbanos, mas não conseguimos ainda partilhar os nossos maiores medos e as nossas desgraças provavelmente apenas porque não vale a pena, a nossa particularidade é essa, o sublime de estar por estar sem dizer palavra, ou então passar noites inteiras a cantar e chorar sem ter necessidade de falar, mesmo assim depois disto consigo finalmente dar nome ao que senti no momento da revelação que afinal os meus amigos tão próximos de mim sofrem como eu e muitas vezes desejam a morte, senti-me uma egoísta vulgar.
No fim de contas é isto que nos une tão arduamente o mesmo ímpeto de morte, a coragem de ter muito medo de continuar e permanecer no trilho do caminho em busca de um mundo melhor, o nosso mundo.