sexta-feira, 3 de julho de 2015

Fantástico o Ser

Todos com as suas lágrimas escondidas.
Foi noite de descoberta, entre copos a mais, e muita fartura na mesa, todos deixaram descortinar os seus anseios, a mesa farta não pode esconder a fome no coração, a fome de esperança, a necessidade de oportunidades iguais, a insegurança de quem foi muito pouco amado.
A namorada do Paulo esteve cá em casa, deixou escapar ao fim de umas taças de champanhe, que na noite de natal, o avô dele expulsou-o de casa, partiu-me o coração...
E de repente percebi, não sou a única a chorar sozinha a mágoa de saber o futuro negro, uns porque o conhecem outros porque passam por ele, mas todos os meus amigos acabam por estar a passar o mesmo mau bocado que eu, e se calhar não só eles mas toda uma geração de mortos vivos à procura de uma sorte.
Partilhamos muito, muito mais que muitos grupos urbanos, mas não conseguimos ainda partilhar os nossos maiores medos e as nossas desgraças provavelmente apenas porque não vale a pena, a nossa particularidade é essa, o sublime de estar por estar sem dizer palavra, ou então passar noites inteiras a cantar e chorar sem ter necessidade de falar, mesmo assim depois disto consigo finalmente dar nome ao que senti no momento da revelação que afinal os meus amigos tão próximos de mim sofrem como eu e muitas vezes desejam a morte, senti-me uma egoísta vulgar.
No fim de contas é isto que nos une tão arduamente o mesmo ímpeto de morte, a coragem de ter muito medo de continuar e permanecer no trilho do caminho em busca de um mundo melhor, o nosso mundo.

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