domingo, 11 de dezembro de 2016

No fim do inicio de uma vida com tantas voltas e sorrisos... elas voltaram!
Não se sabe muito bem porque nem como, mas as vontades desaparecem a pouco e pouco, a força de continuar é temerosamente escassa. Tenho quase tudo, quase tudo o que se pode pedir ou aspirar, vidas entrelaçadas com sorrisos e mão dadas, noites mal dormidas por simples rugas de expressão.
Já tive nada, já conquistei o mundo, sobrevivi ao apocalipse dos fracos e ao holocausto dos que se esconderam. E é aqui neste sossego sem paz que me perco e desfaleço perante milhares de espectadores. Esperam de mim demasiado, mais do que posso oferecer, mais do que sei ou quero.
A regra aguçada trespassa-me de rotinas eu mata todos os prazeres possíveis, criei o que se chama de harmonia perfeita, amo e sou amada, gosto e e odeio, completa de sentimentos e pão para o corpo... Mas tão pobre para a alma é esta minha existência...
Há magoas que julgava esquecidas e ultrapassadas, vivências que achava perdidas, escaras que encarava como cicatrizadas, mas elas estão a reabrir, dia a dia, noite a dentro sinto o fumo dos cigarros fumados sem sentido, os esforços sem frutos as árvores sem folhas na sombra de um destino resumido!
Queria arriscar mas não arrisco, porque tudo esta dependente dos riscos que se corre ao arriscar.
Sou ninguém por ai a deambular mas sinto que o mundo poderia fazer de mim alguém, sei do que sou capaz e sei que dou o melhor de mim em dias de tempestade, sei que me escondo e não incomodo em dias de sol. Sou assim não por esforço ou por consciência... apenas por feitio inato e inerente ao que sou.
Queria cantar porque gosto...
Queria explorar porque me preenche...
Queria ser piloto porque me fascina...
Queria investigar porque sou curiosa...
Queria partilhar os meus conhecimentos porque sou altruísta...
Atendo telefones 8 horas por dia, por vezes 12, digo o que se pode dizer , repetindo vezes sem conta os dialectos da boa educação, sem nunca repetir a frustração, essa é sempre nova e aumenta cumulativamente ao numero de dias, horas, meses, anos em que me mergulho nesta bolha de não sapiência e de conformismo intelectual! È aqui que estou perdida, por muito escassas que sejam as palavras com que me descrevo, são estas as possíveis, porque as letras que tanto amo são gastas num dia-a-dia desesperante sem que nenhum significado lhes seja atribuído. Sinto-me um veleiro sem lona, à deriva sem mar, perdida em incoercíveis vómitos de desespero miudinho que roçam a morte de uma alma quase moribunda.
Sinto que o mais resiliente pedaço de sonho que tive se perdeu, é tarde, tarde porque demora, tarde porque posso perder a segurança de atender telefones, tarde porque se falhar não vou ter amparo, porque arrisquei. Tentei ser o que queria mas quem correm contra as ondas do mar revolto sem um auxilio acaba por vir parar ao areal sem bóia nem salvação, e se como eu forem fortes acabam por sobreviver ao afogamento, sentados numa secretária a encher caixas com ovos de forma simétrica e educada. Longe da idiossincrasia que me faria feliz e que seria de todo um mundo perfeito.
Fico por aqui sentada em frente a um qwerty de 105 teclas e um ecrã incrédulo por presencia tamanha frustração banhada a lágrimas e desabafos.

Temo pelas forças que me possam faltar para discursar educadamente a eternidade futura que se avizinha...